Crônicas

 

 

ALGUMAS HISTÓRIAS DE MÁRIO LUIZ THOMPSON

Luiz Melodia pego sem documento

Uma vez, em fins dos anos 70, eu estava andando com o Luiz Melodia num fusca bege que ele tinha, no Rio de Janeiro. Ele tinha perdido todos os seus documentos, estava sem documento nenhum: nem do carro, nem carteira de identidade, nem CIC, nada. De repente, nos deparamos com uma batida policial. O Luiz nem pestanejou; não se enervou, nem se afligiu. Ele simplesmente desceu do carro, tirou de debaixo do banco do passageiro um compacto com a música “Maria Simplesmente”, dedicada à filha do seu amigo Dro, e a revista “Veja” em que ele aparecia na capa com o Walter Franco, o João Bosco e o Fagner. E disse para os guardas: “Olha, este aqui sou eu, estão vendo? Sou eu aqui na capa. Estou sem documento, mas este aqui sou eu”. Os guardas na hora liberaram. E ele fez uma farta distribuição dos compactos.

 

Ismael Silva revoltado

Uma vez eu estava na Lapa com o Miguel, que era marido da Marluí Miranda, e o letrista Chico Chaves, quando encontrei o Ismael Silva de bengala tomando água mineral. Começamos a conversar com ele. “Ismael, aquela música sua gravada pelo Macalé...” Ele logo sentiu que nós éramos jornalistas e quis dar uma declaração. Disse então que anos antes tinham feito uma homenagem pra ele em que vários políticos discursaram e lhe foi dada uma cadeira cativa para ele ver o desfile das escolas de samba na avenida. E comentou que deveriam lhe pagar royalties: “Afinal de contas, fui eu que inventei a escola de samba, a primeira da história, a Deixa Falar”. Muito revoltado, Ismael então concluiu: “Aquela homenagem toda, aquela politicagem toda, e não é que no ano seguinte eu vou ver o desfile e cadê a minha cadeira cativa? Não tinha cadeira cativa nenhuma...”

 

Um 'vechame' como jornalista...

Uma vez eu resolvi fazer um teste para entrar na revista “Veja” como jornalista – como repórter de texto. E caiu uma dissertação: “Qual era o maior vexame da minha vida”. Eu comecei a escrever e me perguntei: “Mas vexame é com xis ou é com ch? Vejamos: vexame é com ch...”ou X ? E fui escrevendo sobre o assunto até concluir que o meu maior vexame estava sendo aquele, de eu, um pretenso jornalista, não saber se vexame era com xis ou com ch...

 

Amigo do rei de Roma

Eu estava em Roma. Tinha conhecido o Carlos Alberto Torres, que jogava então no Cosmos e que me convidou para ver o jogo Roma e Lácio e me arrumou credencial. Eu estava no campo e, quando entrou o Falcão, eu fiquei parado na do Falcão, só fotografando o Falcão, que era o rei de Roma. Eu o fotografava fazendo embaixada, chutando a bola... De repente o juiz apita para que todos saiam do campo, e eu digo pro Falcão: “Vai firme, Falcão”. Aí, percebendo que eu era brasileiro, o Falcão me diz: “Opa, brasileiro, que beleza, vem aqui, me dá a mão.” E a TV italiana filmando isso tudo. Aí ele fala para a câmera: “Aspetta, sono a parlare com mio amico braziliano”. Conclusão: eu fiquei mais dois dias em Roma, e me paravam na rua para eu dar autógrafos: “Amico di Falcone, amico di Falcone, amico di Falcone...”

 

Começo e fim do meu primeiro amor

 

Eu conheci a minha primeira namorada, a Vera, irmã do Jango, amigo meu, quando fui ao cinema ver “Marcelino, Pão e Vinho”. Eu falei: “Bem, eu vou sentar ao lado da menina mais bonita do cinema”. Eu sentei do lado dela, e a única coragem que eu tive foi de lhe oferecer drops Dulcora e gomas de mascar. Não disse nenhuma palavra.

Mas depois eu descobri que ela morava na rua da minha casa. Aí eu ficava na frente da casa dela, no portão de um amigo. Ela no portão da casa dela fazia uma careta, e eu fazia outra careta, e assim a gente ficava se comunicando, na base de uma careta pra cá, outra careta pra lá. Até que um dia a gente se encontrou no carnaval no Banespa e ficamos de mãos dadas. Passei a ir buscá-la no Instituto Beatíssima Virgem Maria, a escola dela, e depois a trazia de volta de mãos dadas; era a única coisa que eu me arriscava a fazer.

Um dia, eu peguei a minha bicicleta e meu casaco de James Dean, e resolvi passar em frente da casa dela botando os pés no guidão, fazendo uma pirueta, mostrando que eu era radical, que eu fazia peripécias na bicicleta. Casaco novo, ganho da mãe naquele dia. De repente, eu capoto e rasgo o casaco todo na frente dela. Volto chorando para casa.

Mas o namoro não tinha terminado ainda, e eu fui ao aniversário dela. Comprei um disco com “Fascination”, cantada pelo Nat King Cole. Cheguei, dei para ela, ela nem olhou direito, colocou em cima da vitrola. Tempos depois, alguém pôs “Fascination” pra tocar, e eu mais que rapidamente a tirei para dançar ao som do disco com aquela música que eu tinha dado pra ela. De repente no meio da dança ela falou: “Quem botou isso? Tira, tira, que horrível!” Aí terminou o namoro.

 

A segunda namorada

Conheci a Mônica, minha segunda namorada, quando ela cantava no alto de uma colina. Um dia liguei pra ela e estava ocupado. Era ela que estava ligando pra mim. Assim começamos a namorar. Era violonista – o Caetano adorava ouvi-la tocar a flauta mágica e Vivaldi. Enquanto eu organizava o arquivo de fotos, ela tocava. Chegamos a fazer juntos um vídeo do pianista Earhines, o “Fhada”. Tudo isso fez com que namorássemos uns dois anos. Eu ia dormir com o violão e acordava com o violão.

 

Confundido com Paulo José

Eu estava em Brasília, na época do festival de cinema vencido pelo filme “Todas as Mulheres do Mundo”, em que Paulo José atuava. Uma noite eu vou a uma boate depois da exibição do filme, e não é que todo mundo me confunde com o Paulo José, e começam a me pedir autógrafos!

 

A rapidez de Caetano em Roma

Uma vez eu estava em Roma andando de carro com o Caetano. Isso foi em 1983, durante uma semana de música baiana que aconteceu lá, chamada “Bahia de Todos os Sambas”. Eu estava andando de carro com o Caetano em Roma e disse para ele: “Eu estive aqui em 61, em 72, e estou agora em 83”. E ele sem pensar um segundo me respondeu: “Agora você tem que vir em 94”.

 

A menina do iô-iô em Nova Iorque

 De outra vez eu estava em Nova Iorque. Saía do apartamento em que estava hospedado, ali perto do Village, quando vi uma menina jogando um iô-iô na esquina. Pedi o iô-iô pra ela e fiquei na frente dela jogando o iô-iô. Quando ela foi embora, me deu o iô-iô. No dia seguinte eu fiz a mesma coisa, e ela me deu dois iô-iôs. No terceiro dia eu fiz a mesma coisa, e ela me deu três iô-iôs. Foi aí que eu percebi que eu a estava auxiliando a vender os iô-iôs; eu fazia as piruetas com o iô-iô na frente dela e as pessoas atrás compravam o iô-iô.

 

A vodca escondida de Raul Seixas

 

Um dia eu fui à casa do Raul Seixas, e ele me chamou pra um quarto lá em cima: “Vem aqui, vem aqui”. Botou um banco em cima de outro banco em cima de uma cadeira e abriu uma gaveta de um armário lá no alto. Eu pensei: “Ih, aí vem droga”. E não era. Era uma garrafa de vodca.

 

A força do pensamento positivo

Voltando de Ouro Preto com meu amigo Servulo, na estrada Fernão Dias, meu carro quebrou e eu pensei: “E agora? Não, não vou me desesperar: eu vou fazer pensamento positivo”. Aí veio vindo um carro lá de longe, veio vindo, veio vindo e parou. Desceu. Era um mecânico, consertou o carro na hora. E disse: “Não é nada, não. Hoje eu ajudo você, amanhã você ajuda outra pessoa, e assim continuamos rodando todos pela mesma estrada.”

 

A história do cachimbinho

Em Nova Iorque eu tinha um cachimbinho. Um dia eu fui a um barzinho que vendia slice de  pizza. Eu estava com um anel indiano com um oito deitado (o símbolo do infinito) e um livro, “To Be Here Now” que um amigo tinha me recomendado muito em Amsterdam que eu tinha comprado com meu último dólar por um dólar naquele dia. Aí eu me encontrei com um grupo de pessoas, uma das quais tinha o mesmo anel e outra também tinha o livro. Eram pessoas da Alemanha que estudavam comunicação não verbal em Nova Iorque. Eu fiquei fascinado. E combinamos de nos encontrar em um barzinho chamado Shakespeare ali por perto. Aí eu fui em casa, peguei o cachimbinho que eu tinha para levar, mas o cachimbinho estava entupido. Botei água, botei não sei o quê, e não desentupia. Eu comecei a ficar nervoso. Aí eu falei pra mim mesmo: “Qual é a sua, Mário? Fique calmo, vai nessa”. E fui pra rua. Aí, na Quinta Avenida, número 20, eu encontrei um arbustozinho com um gravetozinho que entrava exatamente no cachimbinho. E que desentupiu o cachimbo. Mas parece que eu não tinha aprendido ainda. Eu comecei a andar tão rápido que me perdi: “Onde é o barzinho?” Aí eu novamente me disse: “Não, Mário, fique calmo, vá olhando, observando, vá com calma, fique na sua”. Então eu fui andando, passei por um cara tocando flauta, por um negão cheio de incenso na cabeça aceso, e de repente dei de cara com o barzinho Shakespeare. Mas parece que eu não tinha aprendido ainda. Entrei tão rápido, que fui logo para o fundo e me disse: “Puxa, eles já foram embora”. Quando eu fiquei numa boa e pensei mas ele estão no mesmo planeta que eu a gente ainda se encontra, e vim voltando pra frente do bar, eu os encontrei. Eles estavam na primeira mesa.

 

Apitinhos, bolinha de sabão e um tubo verde

Uma vez, num shopping em São Paulo, eu resolvi, sei lá por que, comprar uns badulaques. Comprei um tubo verde que rodava, rodava e fazia um som, comprei uma bolinha de sabão e comprei dezessete apitinhos. E fui pra Bahia com aquilo tudo no porta-luvas.

Estou na Bahia e – a primeira coisa – vou ver um show de Gilberto Gil na Concha Acústica. Aí eu dou a bolinha de sabão pro Pedro, filho de Gil, ele começa a soprar, e as bolinhas de sabão vão subindo, criando o maior clima para a abertura do show de Gil.

Eu vou então à casa do Smetak, de quem eu era amigo. E levo o filho dele à praia, e dou pra ele o tubo verde que fazia um som incrível. Mais tarde, eu fui encontrar aquele tubo verde nas cabaças, dos instrumentos musicais que Smetak fazia.

E os apitinhos? Bem. Eu estava em Cachoeira, no interior da Bahia, perto de São Félix, sozinho. Havia uma estrada íngreme. Eu começava a subir, a subir, e o carro derrapava. Eu pensei: “Bem, eu posso voltar; aqui tem espaço para fazer balão”. Mas resolvi continuar. E fui subindo, subindo a ladeira que dava num hospital de crianças pobres. Elas começaram a chegar perto do carro, e eu fui dando os apitinhos para elas. Eu tinha dezessete apitinhos e lá tinham dezessete crianças.

 

Procurado por Glauber

Em Berlim, em 72, todo mundo me falava: “O Glauber Rocha está te procurando”. De repente, eu encontrei o Glauber certo dia, e ele me perguntou: “Me disseram que você tem uma coisinha baiana aí, é verdade?”

 

O início de uma longa história

O Caetano cantando “É Proibido Proibir” e sendo vaiado, no Tuca, em São Paulo. Eu era da liderança do movimento estudantil, nós contestávamos o regime, e a maioria que ali estava também era de oposição àquele estado de coisas – o regime instaurado pelos militares. Mas a maioria vaiava Caetano – e eu e alguns o aplaudíamos. De repente, eu vejo uma menina aplaudindo: era Regina ali começou um namoro de muitos anos. Depois nós fomos para a Bahia ver o show que Caetano e Gil tiveram a permissão de fazer no teatro Castro Alves, antes de serem banidos para Londres. Um show que terminou com Gil todo de branco cantando “Aquele Abraço” e o piso do palco descendo no Castro Alves. Mais tarde,  nos encontramos com Gil em Londres. Na porto Belo Road

 

Um trabalho para o professor Herzog

Uma vez na faculdade de comunicações eu fiz um trabalho com o qual tirei nota dez. “Uma excelente análise dos telejornais brasileiros” escreveu o meu professor, que na época era  o Vladimir Herzog.

 

Milagre, não; um "p. rabo"

Eu estava em Roma e ia para Veneza. Eu, a namorada da época, a Helô, e uma italiana, a Laura. Na volta, paramos em Firenze e fomos pegar o trem para retornar para Roma por volta de 1h30 da manhã. Quando chegamos na estação, o trem já estava andando devagarzinho. Aí a Helô correu, e um cara deu a mão pra ela subir no trem. A italiana foi atrás e caiu debaixo do trem. Eu fui tentar salvar a italiana e caí debaixo do trem também. A roda ia passar em cima da gente, e eu dei um jogada de corpo e a empurrei; eu e a italiana ficamos entre as duas rodas, e os vagões passando por cima de nós. Os vagões passaram todos por cima de nós, e aí o trem parou lá na frente. Veio então um velhinho italiano com garrafas pequenininhas de gim, de vodca e de uísque, e falou: “Toma aqui, toma aqui”. A italiana só chorava e eu tomava tudo. De repente, vieram uns italianos e diziam: “Vero miraclo, vero miraclo”. Eu meio machucado e de camisa rasgada. “Vero mirácolo, vero mirácolo”. E outro: “Vero mirácolo, no, fortuna, fortuna”. Aí chegou outro mais incisivo e disse: “Fortuna, no, un gran culo”.

 

Um papo com o papa

Estou em Roma em 83, vem o compositor Batatinha até mim e diz: “Olha, seu Mário, eu vou arrumar um jeito de ver o papa, e você vai comigo para fazer umas fotos de mim com ele, para eu  colocar no jornal lá na Bahia”. Aí a Gal Costa chega: “Mário, eu vou arrumar para ver o papa, você vai comigo porque eu quero umas fotos minhas com ele”. Aí chega a Nana Caymmi:  “Porra, caralho, você tem que fazer umas fotos do meu pai com o papa pra eu dar pra minha mãe”. Aí veio o Moraes Moreira, e veio todo mundo falando que queria foto com o papa. E na verdade, não era uma audiência para cada um; não era nem uma audiência em sala fechada. Foi depois de uma missa, ao ar livre, os baianos enfileirados atrás do altar – as pessoas ficavam ali, o papa passava por elas, era um tal de um puxar batina, outro o puxava pelo ombro, todo mundo tentando falar com o papa. Aí o papa saiu fora rapidinho, foi para o lado de uma bandinha que estava justamente perto de onde eu estava, e parou do meu lado. Aí eu lhe dei uma foto de um menino de Alagados feita em 1963, um menino com um instrumento que ele mesmo fez, uma guitarra tosca com três tampinhas de pasta de dente imitando botão de guitarra. E eu dei esta foto pro papa, e o papa me deu a maior atenção. Perguntou várias coisas, benzeu a foto e falou comigo por muito tempo. De repente ele estende a mão para falar mais uma vez comigo, um segurança toca no meu ombro para eu sair dali, e eu dou as costas pro papa e deixo o papa falando sozinho...

 

O dia em que caí no canal de Veneza

O maior escândalo que eu vivi como fotógrafo foi em Veneza, em 1961, numa excursão que fiz com o meu pai, quando eu era moleque ainda. Comprei uma maquininha bem vagabundinha. Falei para o grupo todo de pessoas com quem eu estava se reunir para eu fotografá-las e, querendo enquadrar o grupo todo, dando uns passos para trás, caí no canal de Veneza de máquina e tudo.

 

Atrás (e em cima) do trio elétrico

Em 74, eu estava em cima do jornal “A Tarde”, na praça Castro Alves em Salvador. Fazendo fotografia e super-8, filmando tudo que acontecia. De repente, entra um trio – o trio elétrico de Dodô e Osmar, saindo pela primeira vez, depois de vinte e cinco anos de recolhimento de Gil . Eu estava em cima me entusiasmei tanto, tanto, tanto, que desci as escadarias do jornal e fui com super-8, duas máquinas fotográficas e gravador, correndo atrás do trio até alcançá-lo lá em cima. E o Gil, que já me conhecia, me cumprimentou, e Osmar gentilmente me convidou para subir no trio. Aí eu ganhei a camisa do trio, e desde então eu fui da família do trio elétrico Dodô e Osmar. Eu fotografava tanto que o Dodô falava assim: “Não deve ter filme na máquina do rapaz, não; não é possível: ele está fotografando muito, não deve ter.”

 

As estréias de Gil, Elis e Raul em Sampa

Há muitos, muitos anos atrás, em 60 e poucos, eu ia a um barzinho que era badalado na época, o João Sebastião Bar, na rua Major Sertório, em São Paulo. Um dia eu vi lá alguém que foi apresentado como uma pessoa que trabalhava na Gessy Lever cantando pela primeira vez em São Paulo uma música chamada “Roda”. Depois eu fui ler no “Bondinho”, uma revista muito legal que existiu mais tarde, que a primeira vez que Gil cantou em São Paulo foi no João Sebastião Bar – “Roda”. A primeira vez que Elis Regina cantou no teatro Paramount, em São Paulo, eu também estava lá. A primeira vez que Raul Seixas cantou em São Paulo, eu também estava lá. Na verdade, a música me puxa, me motiva.

 

Quando eu nasci

Quando eu nasci, a guerra terminou. O meu irmão mais velho pegou um tamborzinho e foi pra rua tocando e dizendo: “Meu irmão nasceu, os japoneses ficaram com medo e acabou a guerra; meu irmão nasceu, os japoneses ficaram com medo e acabou a guerra”.

 

Com Janis Joplin em Arembepe

Eu estava numa casinha em Arembepe, na Bahia, deitado numa rede, quando ouvi um som gutural maravilhoso. Era noite de lua cheia, e eu fui ao encontro daquele som, daquela voz feminina, que ecoava por toda a aldeia dos pescadores. Foi aí que eu encontrei nada mais nada menos que Janis Joplin. Totalmente nua, vindo do mar e cantando debaixo dos coqueiros.

 

Minha mãe

Quando eu era criança, eu acordava com a minha mãe tocando piano. Além de escultora, ela era pianista. Era amiga da Pagu, aluna do Mário de Andrade e tocava com Zequinha de Abreu. E não é que aos 83 anos ela gravou um LP com a participação de Gilberto Gil cantando “Amanhã Será Melhor”, que deu título ao disco? Luiz Melodia, Moraes Moreira, Almir Sater, Ná Ozzetti, Agnaldo Rayol e Déo Lopes também participaram. Júlio Medaglia faz um texto lindíssimo a respeito do trabalho dela. E João Gilberto escreveu na contracapa: “Conversar com Íris é um jardim, ouvir Íris é uma benção”. Esta é a minha mãe. Meu pai costumava dizer quem vai ao mar se prepara em terra e da ordem vem a paz existe bem melhor que a paz.

 

Minha história com João

Esta é uma história muito longa – a mais longa das minhas histórias – e difícil de ser sintetizada.

Eu gosto de João Gilberto desde que saiu “Chega de Saudade”. O meu tio falava assim: “Que cara desafinado”. Mas eu adorava João Gilberto. Minha namorada foi para a Europa e eu ficava cantando: “Outra vez sem você, outra vez, até você voltar”. Eu adorava João Gilberto.

Um dia, já nos anos 70, eu fui à casa de Gil no Rio de Janeiro; Gil estava comendo arroz integral com varetinha – ele era macrobiótico na época. Ele e o Antônio, chofer dele que estava ali na sala. Ficamos naquele silêncio, poucas palavras, e de repente toca o telefone. Era Caetano, diretamente da Bahia, cantando e contando pra Gil que tinha recebido uma fita lá de Nova Iorque com o disco de João que tinha acabado de ser gravado, mas ainda não tinha sido lançado. Então, ele começou a cantar e contar as músicas que tinham no disco: “Isaura”, “Undiú”, “Bebel”, “Avarandado”, “Eu Vim da Bahia”. E o Gil cantava junto. E eu fiquei fascinado vendo aquilo tudo.

Aí eu fui à casa do Macalé, na rua Real Grandeza, no Rio. Ele tinha essa fita e botou pra eu ouvir. O Rogério Duarte estava lá também. Eu fiquei ouvindo. Nesse dia o Macalé estava ensaiando violão na despensa, porque segundo ele a despensa tinha uma acústica legal. E eu fiquei fascinado com aquele som que eu estava ouvindo.

Aí eu fui para o sítio dos Novos Baianos em Jacarepaguá. Eu era amigo dos Novos Baianos também – era amigo de todos eles. Eu cheguei no sítio no momento em que estava chegando uma mesa de ping-pong – e João Gilberto adora ping-pong. Eu ajudei  a montar a mesa de ping-pong. Eu fui contando para as pessoas que eu tinha ouvido o disco do João que ainda não tinha saído. Chegou uma menina pra mim e disse: “E você gostou?”. Eu falei: “Gostei muito. Tem uma música chamada ‘Isaura’, que tem uma moça que canta com ele que é maravilhosa”. E não é que eu estava falando com a própria cantora, que era a Miúcha?

Tempos depois, de volta ao Rio, vindo de São Paulo, estou em Laranjeiras, com meu carro quebrado – um Fusca 1600 conhecido como Zé do Caixão, quarto portas. Passa o Raul Seixas com o seu Corcel amarelo, empurra o carro, o carro pega, e vamos todos para a casa do Guilherme Araújo. O Guilherme Araújo tinha a fita do disco do João, e eu tinha um gravador que tinha comprado em São Paulo. Copiei a fita. E fui correndo levá-la para o sítio dos Novos Baianos para mostrar para eles. Mas eles tinham ido para Embu, em São Paulo, fazer um show. Só tinham ficado Marilinha e Buchinha – Marilinha é mulher de Paulinho Boca de Cantor. Fomos indo ali para Jacarepaguá, em direção ao centro, e ouvindo João. De repente, vimos um disco voador. Era mesmo um disco voador! Ele ia para direita, para esquerda, subia, descia. Foi fantástico. E isso, ouvindo João!

Aí eu fui para São Paulo, direto para o Embu, o show já estava terminando. Eles iam para a Granja Itaiê, dos Byghtons. Eu vou com uma amiga francesa para lá, pela estrada Anhanguera, ouvindo João, e de repente o meu carro pára. Eu digo pra ela: “Vamos ficar aqui ouvindo João, não vamos esquentar a cabeça, não”. Ficamos ali ouvindo João e saímos do carro; o carro estava leve, pegou. A gente precisava fazer um retorno para entrar na estradinha de terra, e de repente nem fizemos, já estávamos na estradinha de terra, chegando ao sítio Itaiê. Chegando lá, o Galvão estava lendo um livro do Humberto Rhoden dizendo que a gente pode se transportar de um lugar para outro como se fosse um disco voador. Pode estar num lugar e aparecer em outro, sem fazer o percurso que tem entre um lugar e outro. Bem, aí, jogamos ping-pong. Depois teve um jogo de futebol dos Novos Baianos com o pessoal do Chico Buarque. E lá fui eu, com super-8 e máquina fotográfica. Tinha uns menininhos de vermelho que eram os órfãos de um orfanato para o qual o Fernando Faro dava uma força. Lá também estava uma menina de amarelo Ficamos lá com as crianças brincando. Um deles me ensinou a empurrar aquele pneuzinho de borracha com ferrinho, outro aprendeu a fotografar. Eu fiquei pensando: “Se eu fosse botar um som em cima deste super-8, eu colocaria ‘Como São Lindos os Iouguis (Bebel)’ porque esses meninos órfãos são yogues brasileiros na música de João tem o sub-titulo de Bebel ”, como é o nome da música instrumental de João neste disco que ele tinha gravado. De repente, alguém chama a menininha de amarelo que estava ali junto e diz: “Bebel, vamos embora”. E era a Bebel. Então eu  acabara de conhecer a Bebel.

Passa um tempo, e eu estou numa excursão pelo Nordeste. Com o Gil na Bahia, com Zé Ramalho em João Pessoa, com Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Alceu em Olinda, e depois em Fortaleza com Ednardo. E João Gilberto em Nova Iorque, há dezoito anos. Aí eu vou parar em Canoa Quebrada. Conheço uma caiçara, estou lá na rede com ela, e penso: “Daqui eu não saio tão cedo, vou ficar com ela”. Eu estava meio que namorando com a menina. De repente, eu ouço no rádio: “Amanhã, em Salvador, depois de dezoito anos de ausência, no teatro Castro Alves, João Gilberto”. Eu disse: “Ai, meu Deus, eu preciso fotografar João Gilberto”. Entra uma menina e fala: “Alguém quer uma carona para Fortaleza?”. Eu pensei: “Vou nessa”. Aí a criançada toda de Canoa foi me acompanhando morro abaixo, peguei uma Kombi, fui para Aracati, de Aracati fui para Fortaleza, de Fortaleza fui para Salvador. Cheguei de tarde em Salvador, e fui para os bastidores, na entrada dos fundos. Estava lá a Rede Globo com fulano de tal, Manchete com fulano de tal. E agora, como eu vou entrar? Aí a produtora passou por mim e disse: “Mário Luiz!” Ela me conhecia. “Ah, você é fotógrafo especial”. E é assim que eu assisto ao show, apresentado por Vinícius de Moraes – o primeiro show de João depois de dezoito anos em Nova Iorque.

Findo o show, eu ia voltar para Canoa, mas surgiu uma história que a TV Tupi ia fazer o encontro de João com a mãe dele em Juazeiro. Então, ficamos no hotel dele esperando ele se decidir. Passa uma tarde, outra tarde, e nada dele se decidir. Estou num canto sentadinho, aparece uma menina, que era a Bebel já maior, e me pergunta: “Você é iogue?” Eu disse: “Não, mas eu conheço você. Você estava num sítio lá em Poá com um vestidinho amarelo”. Ela disse: “Não, era uma blusinha amarela”. Eu disse: “Como você sabe?” Ela disse: “Porque tenho um retrato que a minha mãe me deu no meu álbum”. Era o retrato que eu tinha dado para a Miúcha. Tinha ido parar no álbum da Bebel.

Aí, o João resolve fazer um show no teatro Municipal de São Paulo. Eu venho direto para São Paulo. Deixando as malas na entrada dos fundos do Municipal, peço pro porteiro guardar para poder fotografar o João. E fotografei. Até então, eu não tinha conhecido o João, eu preservava a privacidade que ele queria ter. Até que finalmente eu vim a conhecê-lo pessoalmente. Foi assim. Ia ter um show dele no teatro Cultura Artística, do qual a TV Bandeirantes faria um especial, com Ney Matogrosso também. Eu e minha namorada ficamos tão ansiosos que não dormimos na noite anterior, e no dia adormecemos à tardinha, acordamos tarde e chegamos lá às onze horas da noite, quando já tinha terminado o show. Por isso, eu queria saber alguma coisa, como tinha sido o show, e fui entrando pelo corredor, nos camarins. Aí o João veio saindo e eu não me furtei a falar: “João, a sua presença é um presente para a cidade de São Paulo”. E ele: “Muito obrigado, você é muito doce”. Ele passou por uma porta, voltou e perguntou: “Qual é o seu nome?” Eu disse: “Mário”. Ele disse: “Mário, muito obrigado”. Ele entrou no carro, e dentro estava Rogério Sganzerla. Depois, no dia seguinte o Rogério contou pra mim que ele tinha ficado a noite inteira falando de mim, dizendo que eu tinha sido uma pessoa muito suave, muito terna, muito doce que as pessoas de São Paulo eram muito agradáveis. E no dia seguinte ao dia em que eu fui ao show, ele estava passando esbaforido com o Ney Matogrosso para o palco, parou e falou: “Oi, Mário, como vai? Tudo bem?” Realmente ele tinha gostado de mim e nem sabia há quanto tempo eu já gostava dele.

Depois aconteceu o festival de Águas Claras, onde ele fez um show para milhares de pessoas. Os fotógrafos todos de pé em frente do palco, atrapalhando um pouco, eu me sentei no chão de cócoras atrás dos fotógrafos, até que eles percebessem que estavam tapando a minha visão. Então, eles começaram também a sentar, o clima ficou legal, e o show correu muito bem.

Depois disso, o João foi para Roma e eu também fui. Passamos algumas noites agradabilíssimas lá. João é um iogue, a música dele abre nossos chacras, ele é um mestre, um guru – ele é muito doce, muito terno. Anos mais tarde, acabei fazendo a capa do seu disco “Eu Sei Que Vou te Amar”. Acabei também  indo para Belo Horizonte, onde ele se apresentou no Palácio das Artes, fiz no camarim uma foto dele sorrindo, ele estava feliz. Também no show que ele fez no Palace para a TV Cultura, ele fez uma festa pra mim que a Cultura, aliás, registrou ele me dando a mão com um carinho muito grande naquele comprimento. Ele escreveu a meu respeito, deu um depoimento ao meu respeito, escreveu sobre a minha mãe também no CD dela dizendo: “Conversar com Íris é um jardim, ouvir Íris é uma bênção”. E eu estou muito feliz por causa dessa amizade com essa pessoa tão especial, de quem eu já gostava há tanto tempo e que veio a gostar de mim sem saber que eu gostava dele. Às vezes nós conversamos de madrugada, e é muito agradável.

Num dos pôsteres de fotografias que eu já editei, João declarou: “Mário Luiz Thompson já veio da arte. Sua mãe é uma grande artista. Seu caminho é fotografar a música, sua inspiração. De seus espetáculos, Mário dá este importante registro da vida da música brasileira. Mário, um abraço de todos nós, em coro. Deus te ilumine e te revele a beleza sempre”. Enquanto Raul Seixas diz: “Meu amigo Marinho, quando o louco persiste em sua loucura, ele por certo acabará sábio. Beijos”. Caetano, por sua vez, declara: “Uma das presenças mais constantes nestes anos da intensa criação de música popular no Brasil tem sido de Mário Luiz, fotógrafo e artista. Duas coisas podem ser igualmente belas e de grande beleza. Uma fotografia feita por Mário e Mário fotografando. Ele é o fotógrafo mágico. Nós o apelidamos de Mário Astral no início dos 70, e agora quero chamá-lo de fotógrafo mágico. Cada foto dele tem ao mesmo tempo a instantânea força zen e a longa conversa sem o fim da lenda. Eu adoro ele e adoro o que sai nas fotos que ele tira. Espero que isto seja para muita, muita, muita gente”. Este pôster tem depoimentos de Arnaldo Antunes, Arrigo Barnabé, Milton Nascimento, Alceu Valença, Gilberto Gil, Rita Lee, Belchior, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Luiz Melodia, Dodô e Osmar, Júlio Medaglia, Oswaldinho. O do Milton Nascimento é assim: “Sempre escutei um clique que soava diferente, então olhava e não precisava procurar muito ou nada. Pois descobria logo o sorriso. Parece que esse tem retratado todas as fases de minha carreira. Aliás, faz parte dela”. E eu estou muito feliz por causa dessa amizade com essa pessoa tão especial, de quem eu já gostava há tanto tempo e que veio a gostar de mim sem saber que eu gostava dele. Às vezes nós conversamos de madrugada, e é muito agradável.

Num dos pôsteres de fotografias que eu já editei, João declarou: “Mário Luiz Thompson já veio da arte. Sua mãe é uma grande artista. Seu caminho é fotografar a música, sua inspiração. De seus espetáculos, Mário dá este importante registro da vida da música brasileira. Mário, um abraço de todos nós, em coro. Deus te ilumine e te revele a beleza sempre”. 

 

Minhas fotos no disco de Pat Metheny

Uma vez eu dei umas fotos de paisagens brasileiras ao Pat Metheny, na época do Monterrey Pop Festival, no Rio de Janeiro. Aí eu fui me reencontrar com ele num show que ele faria no Palace, em São Paulo. Ele me viu e falou: “I know you”. E em inglês disse que as fotos que eu tinha dado para ele eram as únicas que havia no quarto dele, e que elas o inspiravam a fazer música. Na seqüência, estas fotos foram parar na capa do disco dele...

 

Sobrevoando e fotografando o Pantanal

Eu ia para o Pantanal com Almir Sater e Paulinho Simões, letrista e compositor, para fazer a capa do disco “Doma”. Foi quando o Paulinho disse que não ia, porque o piloto era um maluco, um cara que fazia peripécias no ar, que gostava de se mostrar, por isso ele disse que não ia, que não ia. Aí, no dia – uma sexta-feira 13 de agosto –, nós passamos na casa do Paulinho, e de repente, o Paulinho entrou no carro para entrar no avião para irmos para o Pantanal. E se comportou bem no avião – eu é que me apavorei um pouco, fechava os olhos, fazia vídeo sem olhar o que eu estava filmando. O cara falava: “Aquelas garças lá”. E descia com o avião para perto do chão. E quando chegamos na fazenda, no Pantanal, o Paulinho me disse: “Sabe, Mário Luiz, por que eu vim? Porque antes de vir eu recebi um comunicado do Ecad dizendo que eu tinha direito a uma certa grana de direito autoral pelos trabalhos de composição que eu fiz. E eu disse: ‘Este só pode ser o meu dia de sorte’. Por isso resolvi vir.”

 

A luz que só Fortaleza tinha

O Ednardo tinha me convidado para fazer a capa do disco “Terra da Luz”, e me falou que queria fazer a foto em Fortaleza, porque estava “com saudades do meu pai, da minha família, da minha mulher, dos meus filhos”... Fomos para o Rio conversar com o cara da gravadora e falamos que tinha que ser em Fortaleza. Mas antes eu combinei com o Ednardo: “A gente fala que em Fortaleza tem uma luz que só Fortaleza tem”. Assim nós conseguimos convencer o cara da gravadora que tinha que ser em Fortaleza porque só em Fortaleza tinha a luz para o disco “Terra da Luz”. Chegamos em Fortaleza, chovia, chovia e nada de fazer as fotos. Fizemos algumas fotos, mas não deu em nada. Voltamos para São Paulo. Chegamos aqui, começamos a ver o material e não tinha nada que se aproveitasse. Eu falei: “Ô, Ednardo, vamos ali na esquina tomar uma cerveja, um café no bar.” E eu saí com a máquina a tiracolo. E na esquina de casa, ele vinha andando e eu fiz uma foto. Fazia um dia ensolarado e ficou uma foto lindíssima, toda ensolarada, com o rosto ensolarado. E o cara da gravadora, quando viu a foto, que se tornou a capa do disco, falou: “Vocês tinham totalmente razão, só em Fortaleza tem esta luz.”

 

Mamãe não me deixou fazer TV

Papai foi um dos primeiros a comprar televisão no Brooklin, em São Paulo, em 51. Vinha toda a vizinhança assistir TV em casa. Era a época do “Sítio do Pica Pau Amarelo”, do “Teatro da Juventude”, “Teatro de Vanguarda”. Eu tinha seis anos. Nasci vendo as primeiras transmissões da televisão brasileira. E uma vez, eu representei num grupo de teatro escolar e algumas pessoas foram ver. O Lima Duarte estava entre essas pessoas. Aí, eis que de repente ele bate à minha porta, me convidando para fazer televisão. Mas mamãe não me deixou, infelizmente. Perdi a oportunidade de seguir uma bela carreira, ainda mais chamado pelo Lima Duarte.

 

Fotos para discos: como tudo começou

Comecei a fotografar como uma forma de estar próximo daquilo que eu gostava de se relacionar contribuindo com aquilo que acredita, uma forma de dizer sim de demonstrar fé. Comecei a ir a shows. Eu tinha vindo de Nova Iorque, onde eu tinha assistido ao último show de John Lennon, e tinha comprado equipamento fotográfico. Cheguei, comecei a fotografar, fiz umas fotos de Gal em 73. E Gal veio em casa com Wagner Tiso e Macalé, viu as fotos, gostou muito. E as fotos foram aproveitadas nas páginas internas do disco “Índia”. Aí começou o meu trabalho como fotógrafo de capa de disco. Logo depois fiz fotos para Gilberto Gil, Vinicius de Moraes, e fui indo. Hoje temos um acervo de mais de cem mil fotos.Editamos este livro Bem Te Vi MPB. E também vai sair em breve Bem Te4 Vi Brasil Terra e Gente livro com fotos que eu fiz do Brasil, de regiões como Amazonas, Pantanal e Araguaia, e aldeias como Canoa Quebrada, Trancoso e Arembepe.

 

UM CONTADOR VISUAL DE HISTÓRIAS

Nascido e criado em um bairro de classe média alta, Mario Luiz Thompson de Carvalho poderia ter se dedicado às mais diversas atividades. Desde o automobilismo, como seus vizinhos Fritz D’Orey e o legendário Christian Heims, morto tragicamente em Le Mans, até o jornalismo ou um posto de executivo financeiro, funções que exerceu na revista Veja e na Rede Globo, respectivamente.

Provavelmente influenciado pela mãe, uma musicista que foi aluna de Mário de Andrade e tocou com Zequinha de Abreu, Mario Luiz acabou se tornando o que seu amigo de longa data Gilberto Gil chamou de “um dos mais zelosos e dedicados devotos da deusa música”. Dono de uma habilidade extraordinária para dirigir um automóvel, desenvolveu um sexto sentido que lhe permitia, por exemplo, filmar os companheiros de viagem sem perder o controle do veículo. Transferiu essa verdadeira terceira visão para a fotografia, a ponto de chegar a registrar 5 shows numa mesma noite.

Essa verdadeira ubiqüidade o levou - por mais de 20 anos – a assistir às primeiras apresentações públicas de Gilberto Gil, Raul Seixas e Rita Lee, produzir imagens da Amazônia e de seu desmatamento, do Pantanal, de Canoa Quebrada, Arembepe, etc., comparecer aos principais festivais de música popular dos anos 60 e 70, desde os eventos da Rede Record e do Festival da Canção até os encontros alternativos de Águas Claras e São Lourenço, registrar o show Bahia de Todos os Sons, em Roma, do qual participaram Dorival Caymmi, João Gilberto, Caetano Veloso, Gal Costa e Nana Caymmi, entre muitos outros; documentar a inauguração da Praça Travessia, homenagem de Três Pontas a Milton Nascimento, seu artista maior, sem esquecer o histórico espetáculo Barra 69, despedida de Caetano e Gil do Brasil, antes da viagem para o exílio na Europa.

Como estudante mergulhado no processo histórico de seu país, então em luta contra a ditadura militar, participou, como presidente do Centro Acadêmico da Escola de Comunicações e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado, do Congresso da União Nacional dos Estudantes, em 1969, quando foi preso pelo DOPS. Interessado na cultura e realidade social do seu povo, fotografou e filmou as nações indígenas Carajá e Tapirapé, as formas de vidas das pessoas mais simples como os canoeiros, as feiras livres, as lavadeiras da Lagoa do Abaeté, procurando captar um país “lírico, lúdico, singelo, mágico e poético, de faceta menos óbvia e mais surpreendente”, como afirma.

Pode-se dizer que – como muitos de sua geração – sempre buscou uma utopia, uma sociedade igualitária que cumprisse o mito de uma Terra Sem Males no cenário paradisíaco de um imenso país continente. Carregou esse sentimento também para a Música Popular Brasileira, ao registrar escrupulosamente todos os participantes do espetáculo musical, desde os músicos do fundo do palco até as estrelas máximas do ofício, privilegiando sempre a expressão mais humana e a emoção mais espontânea, ao invés do clichê ou do gesto posado.

Projetou-se integralmente do âmago de seu tempo, perguntando-se sempre como é possível que um povo, ao qual faltam as condições mínimas para uma sobrevivência com dignidade e decência, possa produzir uma música com tanta variedade de ritmos e dotada de uma riqueza melódica praticamente incomparável. Na ânsia de responder a essa pergunta produziu quase 500 mil fotos, das quais conseguiu preservar 100 mil instantâneos. Nas muitas entrevistas que concedeu a jornais, emissoras de televisão e rádios, para profissionais como Amaury Júnior, Goulart de Andrade, Sérgio Grossman e Silvia Popovic, entre inúmeros outros, procurou explicar como nasceu a sua relação com a alma de seu povo por intermédio da sua arte maior, a música. A todos – em tom de ironia, mas também com muita seriedade – Mario Luiz responde com o aforismo de que “existem várias maneiras de se fazer música e eu prefiro todas”.

Essa variedade e intensidade que tem sido sua marca ao longo de mais de 3 décadas lhe permitiu também registrar a mais caleidoscópica colméia da cultura brasileira nos anos 80, ao gravar em vídeo mais de 60 horas de espetáculos musicais de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fagner, Belchior, Beto Guedes, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Armandinho, Sá e Guarabyra, Alceu Valença, Almir Satter, Elba Ramalho, Lô Borges, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Jards Macalé, Raul de Souza, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, além de manifestações populares pelo voto direto no Brasil, produzindo um verdadeiro barômetro para as gerações que virão e os pesquisadores do futuro de um   dos períodos mais sombrios e ao mesmo tempo mais criativos da nossa história.

Combinando ao mesmo tempo exercício profissional e lazer, Mario Luiz acompanhou e fotografou inúmeros shows de rock, como o célebre concerto de John Lennon no Madison Square Garden, antes de se retirar por um longo tempo, e concertos de jazz por Miles Davis, Oscar Peterson e Alberta Hunter, por exemplo. Não deixou também de produzir imagens com sua Beaulieu Super-8, que hoje poderiam fazer parte do registro biográfico de pessoas como Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Jorge Mautner, Moraes Moreira,  Dodô e Osmar – fundadores do Trio Elétrico -  Alceu Valença, Chico Caruso, Walter Smetak, Rita Lee e Raul Seixas, tal a acuidade e a intimidade com que foram feitas. 

Por fim, e em meio a todo esse labor de fotos, filmes e vídeos, viagens e uma luta incansável para preservar tudo o que produziu, Mario Luiz Thompson foi tecendo a sua própria trajetória, que hoje – por força de todas essas histórias contadas e resgatadas ao rio do tempo – acrescenta um acorde harmonioso à Música Popular Brasileira do século XX.

Sérvulo Siqueira

O AMANTE DA DEUSA MÚSICA

No auge da tropicália, presenciei “Alegria, Alegria” com Caetano e “Domingo no Parque” com Gil, e a apresentação deles no Som de Cristal (na noite em que Vicente Celestino morreu) e no Táxi Avenida.

Estava presente quando Gil cantou pela primeira vez no João Sebastião Bar a música “Roda”. Estava presente também quando Caetano cantou “É Proibido Proibir”, no Tuca.

Lá estava eu quando, pela primeira vez, Elis cantou no Teatro Paramont em São Paulo. Na primeira visita de Almir Sater ao Pantanal, estava com ele. Assisti os festivais da TV Excelsior, Record, Globo e os festivais Abertura no Municipal (participação de Alceu Valença com o show “Vou Danado Pra Catende”).

No FIC da Globo, quando Raul Seixas se apresentou pela primeira vez com “Let Me Sing” (Maracanãzinho).

Na noite em que Chico Buarque apresentou “A Banda”; no festival que Geraldo Vandré apresentou “Disparada”; No que Edu Lobo apresentou “Ponteio”; No Massafeira em Fortaleza; No Rock In Rio; como também me fiz presente nos programas Misturação, quando os cearenses vieram a primeira vez à São Paulo; Na inauguração da Praça Travessia em Três Pontas – MG; em todos os festivais de jazz e free jazz; em todos os festivais de música, os de Águas Claras em Iacanga – SP; São Lourenço e no Castelo da Mombaça com a participação da Cor do Som.

Estava presente quando Sérgio Ricardo quebrou o violão tocando “Beto Bom de Bola”; ia à todos os shows de Luiz Gonzaga e João Donato vivia em minha casa (era muito amigo de minha mãe, à quem ela dedicou uma música) Nas minhas andanças, já me hospedei na casa de Gilberto Gil no Rio e na Bahia; na de Alceu Valença em Olinda; na de Ednardo no Ceará (onde também estive com Régis e Rogério em Canoa Quebrada); na de Armandinho Macedo; na de Zé Ramalho em João Pessoa; na de Chico Maranhão em São Luís do Maranhão; na de Rogério Duprat em Itapecerica; na de Sá e Guarabyra também em Itapecerica; me hospedei com Moraes Moreira e Luiz Melodia no Rio de Janeiro; em Nova York na casa de John Lennon; em Arembepe morei com Janis Joplin, viajei com Gil o Brasil todo com o show Luar e com João Gilberto fui à Roma – quando ele cantou nas ruínas romanas. 

Morei por um longo período em Jacarepaguá com os Novos Baianos e vivi de perto suas releituras esplendorosas também no Rio de Janeiro e em Dias Dávila; vi a atuação expressiva dos Mutantes, O Terço (estive com eles em Trancoso, Porto Seguro e Arraial D’ajuda), Apokalypsis, Som Nosso de Cada Dia; todos grupos muito próximos e amigos.

Fui às primeiras festas de rua, a de Vila Madalena, São Genaro, Bexiga e Pompéia e a maioria dos carnavais do Brasil.

Ia sempre à casa de Sérgio Buarque de Hollanda (pai de Chico Buarque – com quem nutria grande amizade, inclusive com suas irmãs também cantoras) no Pacaembu. Freqüentava a casa de Adoniram Barbosa e adorava os brinquedos artesanais que ele fazia.

Ainda em São Paulo, freqüentava todos os shows da madrugada no Rádio Clube, no Radar Tam Tam, no Atitude, Avenida e Lei Seca.

Estava constantemente nos shows de teatro (no Tuca, Opinião e Anhembi); nos teatros da Prefeitura (Clementina de Jesus); Teatro José de Alencar em Fortaleza; os shows ao ar livre da cidade universitária; os shows no pátio do colégio do Shopping Eldorado; em todos os shows (inclusive o Bem Brasil e, principalmente, o SESC Pompéia e Vila Mariana. No Rio, de preferência, freqüentava o Opinião (Maria Bethânia com Carcará, João Batista do Vale e Zé Kéti).

Por tanto amor e dedicação à nossa música, realizei 12 Tertúlias Culturais em minha casa com as participações de Tom Zé, Ná Ozzetti, Fernanda Porto, Sá e Guarabyra, Bocato, Jards Macalé, Badi Assad, Sivuca, Oswaldinho do Acordeon, Alceu Valença, Walter Franco, Chico César, Mona Gadelha, Passoca, Tato Ficher, Duofel, A Três, Aguilar, Antônio Peticov, Suzana Salles, Michel Freidenson, Ricardo Corte Real, Adiel, Bola Moraes, Jorge Mautner, Celso Sim, José Miguel Wisnik, Jorge Mello, José Luis Penna, Vicente Barreto, J. J. Jackson, Armandinho Macedo, Wandi, Anastácia, Gereba, Virgínia Rosa, Íris Thompson de Carvalho, Carlinhos Antunes, Cris Aflalo, e muitos outros nas áreas de Música, Dança, Poesia e Artes Plásticas.

MINHA VIVENCIA NA BAHIA

Minha relação com a terra baiana, vem de longa data. Estou com 64 anos de idade e aos 15anos, estava lá na Bahia fotografando, com uma máquina fotográfica rudimentar, as crianças de Alagados e apreendendo um pouco de capoeira, com mestre Pastinha, que introduziu a capoeira na Bahia, com quem fiz grande amizade. Já naquela época freqüentava o terreiro de mãe menininha, por quem tive grande admiração e era devoto. Fui assíduo freqüentador da casa de Walter Smetak aprendi muito com ele e fomos muito amigos. Conhecia a teoria dele dos micros tons, ajudei ele a fazer aqueles instrumentos com cabaça, e levava seus filhos a praia.Fiz registros em fotos e vídeos super 8, de trabalhos com o corpo na yoga ou na dança. Fui  amigo de Lia Robato e de  Rolf Gelewski ,da casa Sri Aurobindo. também  fiz trabalhos de vídeo e super 8 com  Clide Mogan convivi  Intimamente com Mario Cravo e Caribé. Tenho depoimentos, a  meu respeito por parte de amigos íntimos, como: Dorival Caymmi, Jorge Amado, Caetano, Gil, Osmar Macedo, Gal Costa, Moraes Moreira e Raul Seixas. Em 68, quando Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram permissão de fazer a última apresentação no teatro Castro Alves Gil cantava aquele abraço, todo de branco, no teatro Castro Alves, eu estava lá. Em seguida estive com eles, no Exílio em Londres. Em 72 tomava banho de mar no Porto da Barra com Gal Costa, jogava futebol com Gil em Itapoá na rua M,  fui e seu  vizinho e em Itapuã. A convivência com os Novos Baianos, e Raul Seixas era muita íntima e intensa, e cheguei a morar com eles.Freqüentava a casa de mestre Didi. para fotografar  os seus trabalhos à pedido de Gil.Quando em 74, trio elétrico e Osmar,saiu as ruas após 65 anos de ausência  das ruas de  Salvador eu  estava lá, lá em cima dele, com outras personalidades da música como, Pepeu Gomes, Gil e Edson Sete Cordas, Acompanhei também  as micaretas pelo interior da Bahia. Morei com Janes Joplin, em Arembepe freqüentei as festas de São João em Cachoeira, estive por várias vezes em Santo Amaro da Purificação  onde conheci Roberto Mendes. Convivi com Rogério Duarte Capinan Patinhas, Rizerio e Jorge Alfredo. Aprendi muito com Pierre Verger, do qual sou fervoroso admirador participei de inúmeras festas de largo, lavagens, participei de festas,como do dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá e lavagem do Bomfim, conheci e sou fã da grande irmã Dulce, assisti o doloroso incêndio do Mercado Modelo. Quando João Gilberto, depois de dezoito anos de moradia em Nova York, de volta ao Brasil, fez Show no teatro Castro Alves com a apresentação de Vinicius de Morais,estava eu lá fotografando e gravando o espetáculo. E no mesmo teatro  em uma outra época fiz uma  belíssima exposição denominada Bem- Te- Vi do Gilberto Gil com as fotos do Gil e seu universo e parceiros e músicos com quem ele tocou. Todos os discos dele, na  exposição estavam disponíveis e sendo tocados fazendo ambientação sonora na  do espaço. Me sinto Baiano de alma e coração “ Eu  vim da Bahia”. Fotografei o Pelourinho antes e depois e da sua restauração,   se não fotografei “as  365 igrejas uma boa parte delas retratei. Sou conhecedor e da culinária Baiana. E grande parte da localidades do litoral e do interior baianos, fui um dos primeiros a chegar e a residir em localidades como Arempebe e Trancoso e Arraial da Ajuda quando eram habitados por nativos, quando estive em Porto Seguro, nem estrada tinha, era de barro, mas lá estava eu, chegando entre um atoleiro e outro, para retratar o que é hoje um grande pólo turístico da Bahia. Fiz muitas orações em Cabrália, local da primeira missa no Brasil. E conheci e retratei os remanescentes de aldeia indígena, que ali residiam. Fazia compras em águas dos meninos, e em Nazaré das Farinhas  e (feira do Caxixi), Feira Santana, mercado Sete Portas, Baixa do Sapateiro, e mercado Modelo. Retratei a cidade alta e baixa, dormi ao relento na lagoa do Abaeté,para fotografar o dia nascendo. Fui manteria de página inteira nos jornaisA Tarde e a Tribuna, quando entrei com o meu trabalho na internet, as praias do Forte, de Buraquinho e todas da linha verde tinham a minha presença constante, assisti muitos espetáculos na Vila Velha,no teatro Castro Alves e no Ikiba, sai nos filho de gandi por duas vezes, vir  surgir novos valores da MPB baiana e acompanho sua trajetória até hoje. Freqüentei o Iate clube e tomava banho no porto da Barra.

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